10.17.2007

American Ice Cream

Só nos Estados Unidos para se ter um sabor de sorvete com um nome de um crítico político de esquerda.

Estou falando do Americone Dream, da Ben and Jerry's, que leva a foto e nome do Stephen Colbert (na foto, em uma natureza morta com água Panna e Macintosh). Stephen Colbert tem um programa de televisão aqui onde ele faz críticas muito engraçadas e irônicas ao governo atual. Agora, mudando um pouco de assunto, não tem nada mais pedante do que um brasileiro tentando posar de americanizado, dizento que entendem esse tipo de piada política tão comum aqui. Não é engraçado e não dá para entender! Ponto final! É simplesmente um fator cultural. Da mesma forma: tenta explicar para um americano que não tem refill grátis de refrigerante em todo fast food no Brasil, pois isso ia levar a loja à bancarrota. Eles não entendem! Eles insistem que uma hora o cidadão ia parar de tomar a maldita coca-cola de graça! [...]. Idem: eles não entendem porquê nós brazucas nos divertimos tanto com um filme onde os bandidos tomam tiro no Rio de Janeiro. Eles acham um assunto sério, uma crítica social - nós achamos graça porque, convenhamos, bandido tomando tiro e a polícia botando moral no morro só pode ser ficção, por mais convincente que os efeitos especiais sejam...

Colbert à parte (e olha que a Barbara Bush mandou ele se foder, com todas as letras, em plena casa branca - isso dá a entender o quanto humor político nos EUA é coisa séria [indcador e polegar, indicador e polegar] e aqui nem com piada se brinca em serviço) Ben and Jerry's é a marca de sorvete mais hypada da América. Fundada por dois ex-hippies (ex-hippies... sei...) de Vermont, o adocicado sorvete é vendido aos litros ao mesmo preço do aclamado Haagen Dasz. O gosto é o mesmo, mas o Ben's é orgânico. Mesmo sem entender porquê raios tudo aqui que é chamado de orgânico é extremamente hype, eu também entrei na onda, claro! Lógica brazuca: se é mais caro, deve ser melhor. Tudo orgânico é mais caro. Feliz da vida, comprei o kit Tom's of Maine - pasta de dente, solução para limpeza oral e desodorante de lavanda. Tudo orgânico e cheirosinho. Eis que eu passei o desodorante e, três horas depois, durante uma palestra em Harvard, um cheiro estranhíssimo emanava da minha pessoa - algo que vagamente lembrava leite longa vida após três semanas na geladeira (eu disse vagamente). Eu, encabuladíssimo, pensava em suicídio social. Considerei até levantar e pedir desculpas públicas pelo meu odor, o qual eu não fazia idéia da razão de existir, e então a coisa mais bizarra aconteceu: uma garota sentada ao meu lado, pasmem todos, elogiou e perguntou o que eu usava. Pausa dramática. Antropogismos à parte, porquê isso é coisa de gente de humanas e eu não gosto, conclui-se que o fedor orgânico (que custa em média 2 dólares mais caro que o cheiro bom normal) é muito hype.

Agora imagine se fosse no Brasil?

Se fosse no Brasil teríamos um Kibon Arnaldo Jabor ou Heloísa Helena, que com certeza teria um gosto que o BOPE não aprovaria. E, para quem não sabe, nós já entramos na moda hype orgânica há muito tempo. Avanço é com certeza orgânico. Très de Marchand, idem. Aquele perfume do metrô de SP às 6 da tarde: muito orgânico. Churrasco grego e coxinha no centrão: orgânico. E o cúmulo: ficaria alguma dúvida de que o fundador do sorvete hype orgânico brazuca seria o Fernando Gabeira?

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